ENTREVISTA com Elisa Rodrigues, Andréa Silveira, Tânia Alice e Nathália Martins, as autoras do e-book “Ensaios da quarentena”, que acaba de ser lançado. Todas são pesquisadoras do Grupo de Pesquisa REDUGE (Religião, Educação e Gênero), que, por sua vez, é parte do PPCIR (Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da UFJF).

“Esse e-book vem como uma tentativa de levantar a moral docente”, assim sintetiza Elisa Rodrigues, uma das quatro autoras do e-book gratuito lançado na última semana (veja abaixo os links onde pode encontrá-lo). Em entrevista concedida ao FONAPER, elas explicam como foi a ideia de fazer esta obra que alia a escuta de professores da universidade e escola na reelaboração do trabalho pedagógico na condição excepcional de pandemia devido ao corona vírus. Mas, não só isto. Nesta conversa com as autoras, o leitor poderá também conhecer um pouco sobre a visão das autoras sobre sociedade, sobre questões de autoria, trabalho pedagógico e gênero. Confira a entrevista completa no portal do FONAPER!

FONAPER: Como surgiu a ideia do tema do e-book? E como foi a escolha do formato?

Elisa Rodrigues: A ideia para o livro surgiu da escuta de diversas professoras e professores, pessoas do nosso círculo na universidade e nas escolas, que diante da pandemia, do isolamento social e da necessidade de reformularem suas práticas de ensino se viram, muitos e muitas, em crise. Nossas alunas e alunos nem sempre tem condições adequadas para estudar em casa e isso gera muita angústia nas pessoas envolvidas com educação nesses tempos. Esse quadro vai gradativamente evoluindo para uma falta de perspectiva que põe em questão a própria importância do trabalho docente. Então, esse e-book vem como uma tentativa de levantar a moral docente. Como uma forma de nos fazer lembrar da centralidade do nosso papel na sociedade, que é promover a transformação por meio do pensamento crítico e do conhecimento. Dar chaves para que portas sejam abertas, mesmo que com condições precárias… a gente pode se reinventar. E daí nos pareceu que esse formato de publicação, o e-book, torna mais democrático o acesso ao conteúdo do livro, que é basicamente um conjunto de quatro ensaios sobre a esperança, sobre a empatia, sobre a valorização das nossas crianças e jovens, sobretudo, a valorização de nós mesmas(os). O e-book, nesse sentido, facilita a circulação das ideias, que podem serem lidas num PC, celular, tablet… enfim, em diferentes mídias. Essa circulação das ideias é o que nos motiva: levar para além dos muros da universidade, o que temos estudado e pensado nos parece uma boa estratégia para promover a esperança e fazê-la combustível para o movimento e para a mudança.

FONAPER: Qual a importância e o significado de serem todas autoras? Ou foi apenas uma coincidência?

Nathália Martins: Somos mulheres que tivemos nossa trajetória de vida entrelaçadas, essa junção se deu pelo desejo de entender e estudar a relação entre religião e educação. Cada qual com suas particularidades e momentos distintos de vida encontramos na Ciência da Religião, especificamente sob a orientação/supervisão da professora Elisa, um espaço profícuo para esse debate. Cabe ressaltar, que é um espaço ainda com predominância masculina, mas que com muito esforço e luta, vem sendo ocupado por mulheres competentes e capazes. É interessante pensar que o fazer pedagógico historicamente é conduzido por mulheres. Dados do censo escolar de 2018, mostram que 80% dos docentes da educação básica brasileira são mulheres, fato que se justifica ainda pela ideia estereotipada de que cabe a nós o cuidado das crianças. Por esse motivo podemos pensar que, se por um lado há um avanço no sentido de mulheres ocuparem um espaço na pesquisa acadêmica, por outro, o histórico androcêntrico “parece ter estimulado” essa entrada a partir das pesquisas em pedagogia. O que para a sociedade machista soa como tarefa de menor valor, para nós é um privilégio, posto que a entendemos como a mais vital incumbência do fazer acadêmico, no nosso caso, um esforço duplo de compreender os teóricos da Ciência da Religião com um olhar voltado para aplicabilidade de suas epistemologias para o Ensino Religioso. Tarefa que demonstra uma inteligência própria de quem historicamente teve seus saberes engaiolados e agora quer mostrar que voar é um ato de liberdade e também de libertação. Este livro é de certa forma um símbolo de abertura e de reconhecimento de que nós mulheres precisamos ser ouvidas, principalmente pelo caráter transformador de nossa produção intelectual.

FONAPER: A quem se destina o livro? Tem um público imaginado no momento da escrita?

Tânia Alice: Esta obra se destina àqueles ou àquelas professoras(es) engajadas(os) com as demandas atuais de uma sociedade que se pretende justa. Sociedade justa é aquela cujas instituições estão comprometidas com a equidade em todos os seus aspectos. Pensando nisso, a escola e seus atores possuem papel crucial no acolhimento das diversidades, incluindo a religiosa. Logo, esta obra foi escrita visando inspirar e esperançar alunos de licenciatura em geral bem como os profissionais da educação que já possuem uma caminhada na difícil arte de educar e que enxergam nessa arte uma ferramenta de transformação da realidade.

FONAPER: Qual o principal objetivo dessa publicação? E como será distribuído e onde pode ser encontrado o ebook?

Andréa Silveira: Nosso principal objetivo foi de conversar com professoras e professores sobre educação, política, religião e o cotidiano da prática docente, sobretudo nesse contexto em que estamos sendo desafiadas e desafiados por políticas de desmonte da educação no Brasil, somado a um distanciamento social que se impôs de forma abrupta na realidade de todas e todos, com impactos significativos para a área da educação. Essa é uma área que tem sofrido ataques reiterados, sobretudo no atual governo. Estamos submetidas e submetidos a um ministério que, mesmo tendo sido assumido por quatro diferentes ministros nos últimos 18 meses, não reconhece a importância de uma educação que seja emancipadora e libertadora, tampouco o papel dos profissionais que a exercem. Nesse sentido, rechaça a centralidade do diálogo tanto no processo de construção do conhecimento, quanto das instituições com educadores e educadoras na elaboração de políticas públicas para a educação brasileira. Essa conjuntura entristece e desanima professores e professoras Brasil a fora. Nosso propósito foi justamente mostrar que, em momentos como esse, é imperativo que nos alimentemos diariamente daquilo que nos encanta na educação, daquilo que nos faz professoras e professores e, assim, nos fortalecer para resistir a um cenário tão desafiador. Uma coisa é fato: as utopias não se concretizam sozinhas! Elas são construídas por aquelas pessoas que nelas acreditam como alternativa de um mundo melhor para todas e todos. E o nosso intuito com essa publicação foi, além de organizar melhor as nossas próprias narrativas e compreender melhor o momento que estamos vivendo, nos fortalecer e prover uma conversa que pudesse também alimentar a esperança, do verbo esperançar, e a força da resistência em um sem número de profissionais da educação. No que diz respeito à distribuição, o primeiro aspecto que eu gostaria de destacar é a gratuidade da publicação. Um dos nossos objetivos ao produzir um e-book gratuito foi de popularizar o conhecimento e torná-lo acessível para professoras e professores de todo o país. Diante disso, o livro está disponível para download gratuito aqui na biblioteca do FONAPER (aqui) e nas seguintes plataformas:

CONTATO com as autoras:
e-mail: [email protected] ; [email protected] ; [email protected] ; [email protected] ; [email protected]


[1] Elisa Rodrigues (Doutora em Ciências da Religião (UMESP) e Ciências Sociais (UNICAMP) – Professora no departamento de Ciência da Religião da UFJF); Andrea Silveira (Doutora em Ciência da Religião – UFJF) Nathália Sousa Martins (Mestra em Ciência da Religião – UFJF); Tânia Alice Oliveira (Mestra em Ciência da Religião – UFJF)

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