Nossa sociedade, dominada que está pelo dogma da produtividade, é o túmulo da criança e, por conseguinte, o fim do brinquedo, já que a expansão das coisas produzidas e consumidas depende da repressão da energia humana dirigida à alegria. Desta forma, o brincar implica numa crítica radical à tal sociedade, e ainda numa subversão de seus valores

Rubem Alves, 1972, p. 98

“Parece brincadeira” termos que discutir ainda os males do trabalho infantil.  Traumas físicos, emocionais, sociais, educacionais e rupturas na democracia continuam a ser justificados sob o pretexto de que crianças precisam ajudar no sustento familiar ou mediante a alegações de que o trabalho ajudaria de alguma forma em seu desenvolvimento. A primeira premissa evidencia as negligências do Estado em prover o bem-estar social, a segunda nega todo conhecimento científico sobre o desenvolvimento infantil.

Entretanto, para além dos graves impactos acima elencados, há ainda outro traço da miséria humana escondido nesse debate. É preciso refletir sobre um pecado oculto, camuflado até mesmo na expressão que inaugura o parágrafo anterior: “parece brincadeira”. Quase não percebemos que no jogo capitalista nos tornamos apenas peças de um sistema de produção que subconscientemente nos catequiza a acreditar no lúdico como algo pejorativo. A alegria e o prazer já não cabem numa sociedade que utiliza a expressão “parece brincadeira” para falar sobre algo que não deveria ser, paradoxo irônico, uma vez que é justamente a ausência de brincadeira que mantém tal sistema.

Como nos ensina Rubem Alves, é justamente por desaprendermos desde cedo que o brinquedo seja um empecilho para o progresso que perdemos a capacidade imaginativa de sonhar com outros mundos possíveis. A criança que inventa um faz-de-conta ensina uma conta que não se faz no mundo dos adultos. E nos acostumamos com um mundo que não deveria ser, um mundo onde a criança não brinca, não sonha, não ri, espelho dos sonhos que deixamos de sonhar e da existência perdida que um dia acreditamos ser possível. A enxada na mão da criança é o legado de uma sociedade que fatalmente aceitou a realidade como sepultura das nossas fantasias sobre paraísos.

“E os grandes pararão o seu trabalho para fazer lugar para o brinquedo das crianças…” (Rubem Alves, 1972, p. 21)

ALVES, Rubem. A Gestação do Futuro. Campinas: Papirus, 1972.

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