Na semana passada, escrevi sobre o papel que os cristãos ortodoxos podem ter no diálogo entre os povos da Rússia e da Ucrânia, à parte seus governantes. Hoje, vejo que é importante analisar um outro aspecto do papel das religiões neste conflito ou, melhor dizendo, na midiatização dele. No pouco tempo que disponho, tenho procurado acompanhar os analistas de mídia e algumas mídias centrais na cobertura do conflito. Avalio que existe uma instrumentalização pseudo-religiosa da guerra. Não é de se estranhar, pois não é novidade na história que os meios de comunicação defendam os interesses dos seus donos e/ou dos grupos dominantes que representam. Porém, certos aspectos são espantosos na contemporaneidade.

QUEM É O NAZISTA?

A primeira grande disputa com aspectos de imitação de discursos catequizadores de alguns setores do cristianismo, é que você precisa escolher o seu Hitler preferido para odiar: heil Putin ou heil Zelensky? O primeiro é um político convicto de direita com a presença de extremistas de direita no primeiro escalão do seu governo. O segundo é ele mesmo um extremistas de direita que faz, claro, um governo de extrema-direita. Ou seja, aí tem direita para todos os gostos. Esta escolha, porém, é falsa. Claro que Putin tem razão quando lembra que já em 2007 (!!), A Rússia alertava a Otan e o “ocidente” sobre os conflitos étnico-raciais no leste da Ucrânia. Depois do golpe de 2014 naquele ex-território russo, os alertas russos se tornaram mais intensos. Mesmo assim, isso não muda o perfil político e sociológico do Kermlin hoje. A aliança dele com Jair Bolsonaro, aliás, o demonstra.

QUEM É O SANTO?

Assim como alguém poderia dizer, talvez brincando, que ali a guerra é de um Mussolini contra um Hitler, também se poderia brincar dizendo que não tem nenhum santo nesta história. O problema é que a mídia dita ocidental resolveu canonizar o comediante que ocupa a presidência da Ucrânia. A mídia brasileira apenas “copia tudo”. Bastaria a efetivação, pelo atual governo, das milícias nazistas ou neonazistas ucranianas nas forças armadas do país – fato que ocorreu bem antes desta guerra – para demonstrar o perfil político deste rapaz que agora faz papel de herói crucificado nas telas do lado de cá do planeta Terra. Nas telas da Rússia e da Ásia, parece que o herói canonizado é Putin. Nem um, nem outro, penso. Os motivos do conflito não estão na adesão pessoal ao bem ou ao mal por parte de dois ou mais políticos… Este, na verdade, é o primeiro conflito armado europeu de grande porte diretamente ligado a uma provável mudança na hegemonia econômica do planeta.

O CLERO MIDIÁTICO

O jornalismo de qualidade e profissional está em risco. Perdeu terreno para um tipo novo de comunicação baseado nas falas abertas nas redes sociais. É evidente que o jornalismo sempre serviu em grande parte aos interesses das nações e grupos poderosos. A novidade, porém, está na dimensão rasteira que as chamadas fakenews estão dando à capacidade do cidadão “médio” se informar para debater. Nem precisa respeitar a opinião de especialistas e acadêmicos. A guerra transformou as opiniões ditas livres das redes sociais em um joguinho de disputa de egos inflamados pelos interesses que, no entanto, se escondem por detrás de cada notícia e se explicitam, por exemplo, na proibição feita pelo dito ocidente democrático da veiculação dos canais e das mídias que partem da Rússia. Cadê a famosa liberdade de expressão tão alegada nesta banda do planeta? Quem são esses sensores que se arvoram democratas? Existe uma profissão de fé no coração deles que justifica essa censura inaceitável?

“É A ECONOMIA, ESTÚPIDO”

Lembrei da famosa frase do assessor presidencial norte-americano para dizer aqui diretamente que não há nenhum valor moral supremo nestas ou destas lideranças políticas de ambos os lados quando decidem pela censura e pela violência. Tais valores, como Liberdade, defesa dos oprimidos e democracia, possuem, todos eles, um histórico religioso. Por favor, deixemos a religião fora das justificativas dos governantes neste momento!! Ali, ninguém está se importando realmente – tanto nos governos envolvidos quanto nos  altos comandos das milícias de extrema-direita e dos exércitos nacionais – com o destino das mulheres, das crianças e dos idosos ucranianos que lotam as estradas em busca de sobrevivência e socorro. O gás, o petróleo, o trigo, o milho e as altas tecnologias do mercado militar são algumas das verdadeiras peças do tabuleiro deste jogo bruto e sujo. Portanto, seja qual for a sua oração ou o seu pensamento, ore e/ou emane pelos ucranianos e russos, pois não há ninguém realmente por eles no front das batalhas…

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