Um fator chama a nossa atenção nos desdobramentos da invasão do governo russo ao território ucraniano: a ausência do fator “religião” na cobertura midiática até aqui. Nas grandes invasões contemporâneas – Iraque e Afeganistão, por exemplo – sempre surgiu, com maior ou menor peso, o papel direto da religião nas mídias. O Talibã afegão e a disputa entre xiitas, sunitas e Estado “Islâmico” no Iraque são fortes exemplos disso. O papel da religião não costuma ser a principal motivação, mas sua aparente total ausência nas notícias até aqui merece análise.

UMA EUROPA ENTRE IGREJAS

Realmente, o continente europeu foi secularizado em um progressivo movimento de mentalidade que se ressalta entre o Renascimento Cultural, a Ilustração Iluminista e o Modernismo. Este movimento permitiu um avanço mais livre da ciência e a criação e consolidação dos Direitos Humanos e da democracia laica. A religião permaneceu, mas perdeu influência sobre os estados nacionais. Uns, mais que outros. Enquanto existiu a União Soviética por sete décadas, por exemplo, os povos que por ela foram influenciados viveram um sistema educacional sem a presença de estudos sobre a religião enquanto fenômeno. Porém, os católicos ortodoxos continuaram no coração de milhões de cidadãos!

O QUE PODE A RELIGIÃO?

Em 2018, a Igreja Católica Ortodoxa russa perdeu sua hegemonia sobre os ortodoxos ucranianos. Um concílio de eclesiásticos ortodoxos ucranianos reunidos em Kiev naquele ano criou uma Igreja independente da tutela religiosa de Moscou. Foi uma ruptura política – não teológica! – para garantir a “segurança e independência espiritual do país” como símbolo adicional do divórcio entre Ucrânia e Rússia. Então, neste conflito tem religião, sim, como sempre. Porém, o que foi uma ruptura em 2018 pode se tornar um canal de diálogo pela paz em 2022.

A PAZ VIA ORTODOXOS?

O forte parentesco familiar, a história multissecular comum entre ucranianos e russos e, finalmente, a integração econômica entre eles, são fatores que vão necessitar de caminho para a construção da paz, cedo ou tarde. Os católicos ortodoxos que, milenarmente, formaram uma única igreja, certamente deverão contribuir para o cessar-fogo e, quem sabe, para a paz. O jornalismo e a mídia precisam falar de religião neste conflito!!!! Afinal, a religião comum é um dos maiores laços entre estes povos.

DIREITOS HUMANOS VIA RELIGIÃO

A secularização do mundo ocidental desde o século XVI não influenciou apenas os não-religiosos. As igrejas cristãs foram profundamente influenciadas pela consolidação dos Direitos Humanos. Parte significativa das atuais lideranças ortodoxas são comprometidas com algum formato de pensamento contemporâneo. E mais: os religiosos certamente atuarão ajudando indivíduos, famílias e “pequenos” grupos diante da crise humanitária e da provável violência política que virá nos próximos dias. Oxalá, a paz!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.