É ainda muito comum a tentativa de separar o sofrimento “objetivo” provocado pelas crises materiais da vida – típicas do modelo social e econômico que temos – dos sofrimentos e das dores “subjetivas”, que caracterizam a alma humana. Na compreensão dos estudos profundos da alma e dos sentidos do viver, essa diferenciação não cabe. Somos subjetividade e objetividade ao mesmo tempo! A profunda crise econômica que afundou o Brasil nos últimos anos, dói na alma como dói também nos estômagos dos famintos.

SAÚDE MENTAL

A dor provocada pelos fatores da crise, tais como desemprego, inflação, fome, milícias e aumento da miséria e da pobreza, pode ser percebida numa pandemia. Não na pandemia do coronavírus, mas na pandemia de adoecimentos mentais já em curso em nossa sociedade. A doença mental psiquiátrica é sempre conjunto de sintomas que revelam por muitos caminhos os adoecimentos sociais da Alma coletiva. Claro que uma parte não desprezível de seres humanos consegue tirar boas lições espirituais da crise e crescer interiormente com ela. É uma minoria, porém…

FOME

O retorno com grande intensidade da presença de famélicos nas ruas, estradas e praças, pegou, por exemplo, os mais jovens de surpresa. Tanto muitos dos jovens que estão vivendo a fome quanto muitos deles que apenas a presenciam, foram colhidos por imagens que haviam desaparecido da vida brasileira nos anos 2000! Estas imagens tenazes são capazes de acionar diversos arquétipos antes adormecidos pela prosperidade que o país viveu há pouco tempo atrás. Arquétipos monstruosos e aterradores acionam, numa sociedade cristã como a nossa, o “inimigo do bem”, representado nas diversas possibilidades de se imaginar coletivamente o demônio. Isso atiça a dor coletiva interior.

ALIMENTO DA ALMA

O padrão de consumo da chamada globalização é impossível de ser alcançado por todos ou mesmo por uma maioria razoável de seres humanos. Não teremos bilhões de famílias vivendo em casas particulares de alvenaria, com água, luz e veículos a combustão disponíveis porque isso é ecologicamente impossível. Simples assim. Então, o que é que buscam aqueles que agora estão dispostos a sobreviver nas duras regras da economia ultraliberal? Buscam uma satisfação impossível… A substituição das narrativas míticas profundas que atenuavam o sofrimento “neste mundo” pela “venda” do futuro como mito terapêutico para toda a vida, fracassa desde o século XIX. O sonho de ganhar dinheiro não preenche a alma nem gera renda para todos.

NO DIVÃ

Para simplificar, é como se o Brasil estivesse no divã de um analista ou no confessionário de um bom sacerdote. Estamos tendo que enfrentar nossos demônios mais obscuros. Esta ex-colônia portuguesa carrega o racismo estrutural, a destruição da natureza e a atividade econômica predatória como mentalidade obscura que começa pela própria elite do atraso. Claro que existem uns poucos setores avançados na elite. Inovadores, como apontou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Porém, já estamos há um século esperando que os inovadores inovem o suficiente. Fica claro que o Estado precisa ter um papel muito mais incisivo para um equilíbrio social que nos livre dos velhos fantasmas coloniais, derrubando os muros do condomínio-Brasil para estabelecermos relações sociais espiritualmente mais saudáveis.

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